que decorre todos os anos neste dia.
O ANO DA VIAGEM MISTÉRIO
Naquele ano, a organização da viagem seria da responsabilidade da avó e por sua escolha, do neto mais velho. Há já alguns anos que, na mesma altura do ano, toda a família dava um passeio, sempre a expensas da avó. Meio a brincar, meio a sério dizia ela que dessa forma, quando morresse, os filhos pouco teriam para dividir e assim não iriam zangar-se entre si.
No final de cada verão, habitualmente elegia-se de entre todos, quem iria organizar a viagem do ano seguinte, por altura do período da Páscoa. Nesse âmbito, competia ao pequeno grupo organizador, ocupar-se de todos os aspectos relacionados com a boa realização da viagem. Uns relacionados com a marcação de reservas, com a elaboração de roteiros. Outros relacionados com o evento, mas já durante o seu decorrer. Por fim, as suas funções terminavam com a elaboração de um pequeno relatório, a apresentar em jantar adequado, para todos os participantes. Para aquele ano, a organização competia à avó e ao neto mais velho.
Porém, daquela vez a situação tinha adquirido novos contornos. A avó queria que o passeio do ano seguinte fosse mistério. Assim, apenas os dois elementos da “organização” teriam conhecimento do destino final da viagem.
Desde logo começaram a surgir entre todos, novos e graúdos, as hipóteses mais diversas. Os dias esses, foram passando como habitualmente. Entre uns, de forma mais subtil, outros nem tanto, cada um ia tentando saber do destino da viagem. Da parte de alguns, havia quem recorresse a terceiros. Soube-se disso mais tarde. Da parte de outros, havia quem se apresentasse já na posse da informação tão desejada. Para dessa forma suscitar algum deslize à “organização” e assim poder obter algum indício sobre o "tal destino". Com estas ou outras, todas as estratégias se revelaram inúteis. A avó não deixava escapar qualquer sinal, ainda que mínimo, sobre tal assunto. O mistério a esse propósito, era completo e adensava-se. Segundo a anfitriã, a sua revelação estaria guardada para data mais apropriada e muito próxima do evento.
Agora que tudo passou, talvez uma ou duas pessoas daquele grupo de viandantes pudessem ter tido qualquer conhecimento prévio sobre o assunto. Todavia, incontestavelmente, os objectivos da avó foram conseguidos. De uma forma lúdica, por um lado, permitiu-se criar um sentimento de curiosidade, e por outro lado, a todos mobilizar para o evento da viagem. Aquela família mostrava-se empenhada e coesa em algo tão simples mas, se necessário, noutros assuntos de maior gravidade. As pessoas davam assim, importância àquilo que as unia.
Estava-se em meados de Fevereiro, ano da viagem mistério. Tudo continuava como antes ou pelo menos, assim se supunha. Até que numa manhã fria e cinzenta de domingo, o mistério se adensou mais ainda, ao ponto de se tornar insuportável primeiro, para depois parecer inacreditável. A avó tinha partido em viagem, sozinha, sem que disso tivesse dado qualquer conta, a quem quer que fosse, mesmo do grupo. Daquela vez, ela tinha iniciado uma grande viagem, inesperada para ela, de mistério para os que ficaram mas, com a certeza de não haver retorno. Do que dela se conhecia e segundo uma sua muito forte convicção, teria partido em boa companhia. Ainda assim, o mistério, esse permaneceria nomeadamente, quanto à sua companhia e quanto ao seu ponto de chegada. O espanto e a tristeza transbordou no íntimo de todos os viandantes perante tão inopinada viagem.
A partir daí, numa nova circunstância e viajando a expensas próprias, todos vieram a dar conta que, dependeria de cada um, poder alcançar a avó. E talvez assim, numa futura encruzilhada, qualquer um deles a pudesse ou não, avistar, conforme a memória individual que dela, cada um guardasse no tempo.