domingo, abril 18, 2004

Hipótese ou Realidade



"(...). Neste novo mundo a política local é a da etnicidade, a política global é a das civilizações. A rivalidade das superpotências é substituída pelo choque das civilizações (...)"


The Clash of Civilizations - Remaking of World Order, Samuel P. Huntington, 1996.




No contexto da política internacional relativa ao Médio Oriente, vamos assistindo diariamente a uma catadupa infindável de novos acontecimentos que, tornam cada vez mais real aquilo que em tempos parecia apenas uma mera hipótese: o choque de civilizações. Sem dúvida que o mundo está a adquirir novos contornos.
Olhando apenas para o seu "umbigo", os políticos envolvidos na questão em causa, parece estarem numa "fuga para a frente", que os torna incapazes de perceber mais além, do que o momento.

quarta-feira, abril 14, 2004

O Ser e a Liberdade



«Processo cósmico onde duas almas gémeas se encontraram finalmente para formar uma só e onde a noção de tempo parece parar»




sexta-feira, abril 02, 2004

Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.




Persistance de la mémoire, 1931, (Salvador Dali)




«A paisagem é um silêncio com forma»

Federico Garcia Lorca

segunda-feira, março 22, 2004

Procuram-se Estadistas

Após um período de guerra fria, em que as ameaças às democracias ocidentais estavam bem materializadas quanto aos adversários, quanto ao tipo de ameaça e aos locais para concretização dessas ameaças. Vivemos agora um outro tempo, em que as ameaças internacionais já não apenas à segurança dos líderes políticos, mas também ao cidadão anónimo nas mais diversas situações do quotidiano, adquiriram contornos de verdadeira e total incerteza.

Se não, vejamos. Desde o atentado de 11 de Setembro em Nova Iorque, que a comunicação social fala aberta e frequentemente da organização responsável por esse sanguinário atentado e de muitos outros igualmente terríveis, a Al-Qaeda. No entanto, até agora pouco se sabe em concreto o que é. Talvez por isso, haja tanta dificuldade em desmantelar tal organização e nomeadamente capturar o seu lider, Osama bin laden. Daí que por esse motivo, o terror tem vindo a aumentar no ocidente.

Outra grande incógnita diz respeito ao local efectivo para a concretização das ameaças. Pelo que se sabe, apenas se conseguem elencar potenciais locais como alvo dos atentados. Daí que a prevenção de tais actos se revele muito difícil, senão mesmo impossível. Um exemplo disso mesmo é o atentado de 11 de Março em Madrid. Os alvos deixaram de situar-se em países com problemas político-religiosos, para passarem a verificar-se nas democracias ocidentais. Chegando ao ponto de conseguirem influenciarem resultados eleitorais. Mais uma vez, o caso de Madrid encerra esse novo paradigma.
Quanto ao tipo de ameaça, também se pode dizer que as coisas não estão fáceis. A diversidade de formas possíveis para criar terror de forma massificada é infinitamente grande. Associando-se a muitas delas ainda, sempre uma possibilidade de actuação muito dissimulada. Neste nosso tempo, estas organizações especializadas em produzir terror também detém o conhecimento do state of the art tecnológico.

Por tudo isto se poderá dizer que o mundo tem vindo a tornar-se num lugar cada vez menos seguro, porque cada vez menos previsível. Desde os países mais pobres aos mais ricos todos se sentem ameaçados. Para aquelas organizações “os fins justificam os meios”, desvirtuando-se assim o sentido de justiça existente nos regimes políticos ocidentais. As democracias têm aqui um verdadeiro desafio a enfrentar, conseguirem debelar os criminosos sem porem em risco os direitos políticos, civis e económicos característicos das suas sociedades.

Perante tal situação, olhamos para a frente e para os lados na expectativa de encontrar líderes políticos que para tal tenham capacidade e a escolhas possíveis não são muito entusiasmantes. A maioria dos lideres políticos actuais adopta uma postura de olhar apenas para o seu “umbigo”, numa atitude algo mesquinha e egoísta, de apenas valorizar resultados imediatos. Manipulando qualquer alternativa que não sirva os seus reais interesses. Procuram-se por isso, lideres políticos com postura de verdadeiros estadistas, que sejam capazes de irem contra o actual estado das coisas.

sábado, março 13, 2004

Paragem do tempo

Por vezes, sentimos que o tempo pára. Nessa altura, vivemos esse momento como se fosse o infinito... Sonho ou imaginação, pouco importa...


UMA NOITE PARA COMEMORAR

Esta é só, uma noite para partilhar,
qualquer coisa que ainda podemos guardar cá dentro,
um lugar a salvo para onde correr,
quando nada bate certo
e se fica a céu aberto,
sem saber o que fazer.

Esta é, uma noite para comemorar,
qualquer coisa que ainda podemos salvar do tempo,
um lugar para nós onde demorar,
quando nada faz sentido,
e se fica mais perdido,
e se anseia pelo abraço de um amigo.

Esta é só, uma noite para me vingar,
do que a vida foi fazendo sem nos avisar,
foi-se acumulando em fotografias,
em distâncias e saudade,
numa dor que nunca acabe
e faz transbordar os dias.

Esta é, uma noite para me lembrar,
que há qualquer coisa infinita, como o firmamento,
um sorriso, um abraço,
que transcende o tempo,
de ter medo como dantes,
de acordar a meio da noite,
a precisar de um regaço.



(Letra de uma canção de Mafalda Veiga)

quarta-feira, março 10, 2004

Sem tempo

Diz o povo, «quem não vive como pensa, acaba por pensar como vive».

São poucas as pessoas que vivem como pensam. A grande maioria pensa conforme a vida que leva. São poucos aqueles que formam a sua consciência de acordo com as ideias que a reflexão sobre a vida vai forjando. Quase sempre é a vida que se vive que vai formando (ou deformando) a consciência.



AO ROSTO VULGAR DOS DIAS

Monstros e homens lado a lado,
Não à margem, mas na própria vida.

Absurdos monstros que circulam
Quase honestamente.

Homens atormentados, divididos, fracos.
Homens fortes, unidos, temperados.

Ao rosto vulgar dos dias,
à vida cada vez mais corrente,
As imagens regressam já experimentadas,
Quotidianas, razoáveis, surpreendentes.

Imaginar, primeiro, é ver.
Imaginar é conhecer, portanto agir.


A. O´Neil

sexta-feira, março 05, 2004

África dos Meus Sonhos

Citando a «Coragem de Ser Autentico», “Quem não erra, não aprende. Quem não aprende não vive. E a vida deve ser vivida intensamente”.
Assim, podemos aceitar que o erro apenas será grave se não nos servir para aprender a viver de acordo com o que pensamos e sentimos.

Vem isto a propósito do filme “África dos Meus Sonhos” de Hugh Hudson. Trata-se de um filme sobre África, mas também sobre os desafios e a adversidade sentida por uma das suas personagens centrais, Kuki Gallmann (Kim Basinger), que decide ir viver para África. Não ser apenas “uma sonhadora, sem coragem para mudar a sua vida”, mas alguém capaz de recomeçar tudo de novo, num novo lugar, segundo ela nos diz logo no início do filme. Esse foi o seu desafio, a sua aventura, se quisermos, a sua grande descoberta. É assim que ela chega ao rancho Ol Ari Nyiro no Quénia, vindo mais tarde este a constituir o núcleo de partida do Gallmann Memorial Foundation.

Do filme constatamos que afinal, um grande desafio será o de descobrir o mundo que habita em cada um de nós, porque segundo aquela mesma personagem “paramos de crescer por fora, mas não por dentro”. Qualquer descoberta será sempre uma aventura, porque viver significa correr riscos. Quase se poderia dizer que, viver sem risco só talvez depois da morte, e ainda assim ninguém pode ter essa certeza.

Tudo isto porque não é possível viver, aprendendo, sem errar. Em qualquer momento, numa inesperada esquina do nosso quotidiano, o risco está presente nas opções que fazemos, ou mesmo, naquelas que deixamos de fazer. Todavia, o risco existe porque associado a ele está a incerteza quanto à opção exacta a tomar.
Por outro lado, não decidir com receio do risco será, de cada vez, assumir a fraqueza da nossa posição que desaguará no final, num enorme sentimento de frustração pelo tempo e pelas oportunidades inexoravelmente perdidas. Talvez até se possa dizer que, a grandeza das nossas descobertas possa ser proporcional aos riscos assumidos por cada um de nós, permanentemente.

Nesse sentido, Kuki Gallmann, pelo contrário, assume correr riscos. Constatamos mesmo que ela possui uma espantosa capacidade de resistir às adversidades surgidas, algumas delas gigantescas, mas isso não me cabe revelar aqui, obviamente.
Na procura do mundo e de nós próprios, sendo estes tantas vezes a mesma coisa, devemos ser aquilo que sentimos querer ser, para que o melhor que há em nós, possa ser realçado, tal como refere Kuki.

No fim do filme podemos descobrir, ainda segundo Kuki, que “finalmente o que podemos fazer é viver cada dia e saber que a única verdadeira dádiva é a graça de continuar com o trabalho que há a fazer, com as pessoas a amar e saber que o que amamos nunca podemos perder”.



segunda-feira, fevereiro 23, 2004

O Ar do Tempo

Segundo José António Saraiva (Expresso, 21 de Fevereiro. pp.3), “«ar do tempo» é o que pensam as pessoas que não pensam”. Diz ele que, “em relação a todos os assuntos há os que procuram reflectir e chegar a uma conclusão – e os que apanham uma opinião no ar e a adoptam sem pensar. A opinião que a maioria das pessoas adopta deste modo «leve» corresponde ao «ar do tempo»”.

Vem isto a propósito, para falar da tendência actualmente crescente para a liberalização económica, nas modernas economias de cariz ocidental. Nos dias de hoje, ninguém poderá saber se se trata de um fenómeno sustentável, ou apenas passageiro, condizente com algo que se enquadra no «ar do tempo». A trajectória que a História percorre nem sempre corresponde ao percurso da racionalidade e por isso o assunto se reveste de muita imprevisibilidade.

No entanto, actualmente, reconhece-se que seja essa a regra na(s) economia(s) globalizada(s) em que vivemos. Aquela foi uma tendência que teve a ver com as orientações em matéria de política económica contidas no «Washington Consensus». Este consistia num programa composto por dez medidas de política económica, supostamente permitindo uma maior abertura das economias e consequentemente, um maior crescimento económico . Estava-se assim, perante a emergência de um novo paradigma económico.

A questão adquire maior pertinência quando estão em causa questões de natureza social. Neste contexto, «en hora buena», mão amiga me fez chegar um livro, “A Globalização da Pobreza e a Nova Ordem Mundial” de Michel Chossudovsky, editado pela Caminho, em finais de 2003.
Contrariamente a uma política neoliberal desregrada, há equilíbrios sociais que são característicos do avanço da nossa civilização. Por isso mesmo, devem ser preservados e valorizados, no âmbito das políticas económicas, cujo objectivo final será sempre o de fomentar maior desenvolvimento económico.

sábado, janeiro 17, 2004

O Tempo

O tempo, esse bem escasso.

A vontade ao tempo
Por vezes, a cidade invade-nos o espírito. Cheios de Mundo, abrigamo-nos num espaço de introspecção, livres das desgraças humanas. Assim, sonhamos e conquistamos o tempo da nossa memória, passada e futura.
Navegando pelo nosso interior vamos ultrapassando a espuma dos dias, na expectativa de encontrar um lugar desconhecido, talvez inexistente, para onde nos dirigimos.

quinta-feira, janeiro 01, 2004

Mesmo que o tempo passe

O ano de 2003 chegou ao seu final, estamos no novo ano. É assim mesmo, o tempo é inexorável na sua passagem. Neste fluir constante e ininterrupto, para nós simples mortais, ele vai deixando as marcas da vida que vamos escolhendo.
Sempre ocupados com tudo, tantas vezes não conseguimos encontrar apenas algumas coisas simples que, nos permitiriam distinguir a substância da circunstância, o visível do invisível, o essencial do acessório. Designações diferentes para a mesma realidade, apenas diferindo na perspectiva.
Alguns de nós finalmente, terão consciência do quanto andaram desfocados consigo mesmos, deslocados com a própria vida que escolheram. Dessa forma, acabamos a dar importância a aspectos que, o não mereceriam. Por conseguinte, esqueceremos outros por serem mais simples, mas talvez, mais determinantes na vida de cada um de nós.

A propósito de coisas simples, mas importantes na construção da nossa felicidade quotidiana, aqui fica a memória de um momento sempre inesquecí­vel do filme CASABLANCA (1943), de Michael Curtiz, em que a personagem Sam canta a pedido Ilsa,


AS TIME GOES BY

You must remember this,
A kiss is just a kiss,
A sigh is just a sigh,
The fundamental things apply,
As time goes by.
And when two lovers woo,
They still say "I love you",
On that you can rely,
No matter what the future brings,
As time goes by.


(UM BOM ANO DE 2004)

terça-feira, dezembro 16, 2003

Candura

F. J. Viegas, do Aviz, refere-se à "candura" como uma coisa que se descobre em certos momentos - instantes fugazes - (...). [A propósito de] pessoas em quem se descobre essa candura, apesar de tudo o que as separa de nós. (...).

Tomando "candura" como uma qualidade daquilo "que apresenta pureza" ou se se preferir, como antónimo de "cinismo" (dicionário Houaiss da Lingua Portuguesa), a minha concordância com F. J. V., acerca de tal pensamento é total. Ainda que não esquecendo a enorme carga de subjectividade em tal assunto.

Afinal, refiro-me àquelas pessoas que pretendem descobrir a vida, tal qual ela é, sem perfeições, de sul para o norte, de cima para o baixo, no fim ou no princí­pio, nas mais inusitadas circunstâncias. Mas conscientes da idiossincrasia latente em cada um de nós.
E nesse sentido, dispostas a aceitar as diferenças existentes porque, não têm medo de viver. Dessa forma poderão eventualmente, tornar-se complementares e geradoras de mais empatia entre si.

Tal como faz notar F. J. Viegas, apesar de tudo o que as separa de nós.



SONHO PERDIDO

Como foi que o meu sonho se perdeu
No liso descampado desta vida?
Distraída
Atenção
Que tão ingloriamente empobreceu
Quem não tinha outro vinho e outro pão!

Na fundura dos bolsos não encontro
Nem sequer a lembrança desenhada
Do seu calor!
Perdi o sonho... E resta-me o pudor
Deste triste poema ressequido...
Perdi o sonho... E nunca se encontrou
Nenhum sonho perdido.



in: "Cântico do Homem"
Miguel Torga

O tempo não apagará da memória os ditadores

Refiro-me à  notí­cia da actualidade: "Saddam Hussein está preso". O assunto merece maior reflexão, obviamente.
Todavia, agora que se impõe o julgamento do sanguinário ditador, em nome de um Mundo que se pretende mais livre e democrático para todos, convirá ter presente as palavras sábias de Winston S. Churchill, no seu livro, Memórias da Segunda Guerra Mundial:

Na Guerra : Determinação;
Na Guerra : Insurgência;
Na Vitória : Magnanimidade;
Na Paz : Boa Vontade.

terça-feira, dezembro 09, 2003

Acerca de alguns comentários

Do Portugal profundo chega-me um comentário que registo com agrado, na medida em que cultiva o respeito por quem já viveu mais anos, o que costuma significar outra sageza, coisa que não vem nos livros. Aprende-se com a vida.
Todavia, o texto em causa é apenas ficção.

Quanto ao comentário de Olhosnosolhos, penso que sintetiza bem algumas ideias subjacentes ao texto.
Da minha parte, apenas direi o mesmo, de forma ligeiramente diferente: se viajar significar partir e tantas vezes, partir é morrer um pouco. Então, morrer talvez seja partir muito.

Agora que elaboro este comentário, ocorre-me uma leitura que talvez possa acrescentar algo a propósito destas divagações metafísicas. Estou a pensar, obviamente, no Livro do Desassossego de Bernardo Soares (outro heterónimo do nosso Fernando Pessoa). Sempre uma grande leitura.

domingo, dezembro 07, 2003

A propósito de um jantar

que decorre todos os anos neste dia.

O ANO DA VIAGEM MISTÉRIO

Naquele ano, a organização da viagem seria da responsabilidade da avó e por sua escolha, do neto mais velho. Há já alguns anos que, na mesma altura do ano, toda a família dava um passeio, sempre a expensas da avó. Meio a brincar, meio a sério dizia ela que dessa forma, quando morresse, os filhos pouco teriam para dividir e assim não iriam zangar-se entre si.

No final de cada verão, habitualmente elegia-se de entre todos, quem iria organizar a viagem do ano seguinte, por altura do período da Páscoa. Nesse âmbito, competia ao pequeno grupo organizador, ocupar-se de todos os aspectos relacionados com a boa realização da viagem. Uns relacionados com a marcação de reservas, com a elaboração de roteiros. Outros relacionados com o evento, mas já durante o seu decorrer. Por fim, as suas funções terminavam com a elaboração de um pequeno relatório, a apresentar em jantar adequado, para todos os participantes. Para aquele ano, a organização competia à avó e ao neto mais velho.

Porém, daquela vez a situação tinha adquirido novos contornos. A avó queria que o passeio do ano seguinte fosse mistério. Assim, apenas os dois elementos da “organização” teriam conhecimento do destino final da viagem.

Desde logo começaram a surgir entre todos, novos e graúdos, as hipóteses mais diversas. Os dias esses, foram passando como habitualmente. Entre uns, de forma mais subtil, outros nem tanto, cada um ia tentando saber do destino da viagem. Da parte de alguns, havia quem recorresse a terceiros. Soube-se disso mais tarde. Da parte de outros, havia quem se apresentasse já na posse da informação tão desejada. Para dessa forma suscitar algum deslize à “organização” e assim poder obter algum indício sobre o "tal destino". Com estas ou outras, todas as estratégias se revelaram inúteis. A avó não deixava escapar qualquer sinal, ainda que mínimo, sobre tal assunto. O mistério a esse propósito, era completo e adensava-se. Segundo a anfitriã, a sua revelação estaria guardada para data mais apropriada e muito próxima do evento.

Agora que tudo passou, talvez uma ou duas pessoas daquele grupo de viandantes pudessem ter tido qualquer conhecimento prévio sobre o assunto. Todavia, incontestavelmente, os objectivos da avó foram conseguidos. De uma forma lúdica, por um lado, permitiu-se criar um sentimento de curiosidade, e por outro lado, a todos mobilizar para o evento da viagem. Aquela família mostrava-se empenhada e coesa em algo tão simples mas, se necessário, noutros assuntos de maior gravidade. As pessoas davam assim, importância àquilo que as unia.

Estava-se em meados de Fevereiro, ano da viagem mistério. Tudo continuava como antes ou pelo menos, assim se supunha. Até que numa manhã fria e cinzenta de domingo, o mistério se adensou mais ainda, ao ponto de se tornar insuportável primeiro, para depois parecer inacreditável. A avó tinha partido em viagem, sozinha, sem que disso tivesse dado qualquer conta, a quem quer que fosse, mesmo do grupo. Daquela vez, ela tinha iniciado uma grande viagem, inesperada para ela, de mistério para os que ficaram mas, com a certeza de não haver retorno. Do que dela se conhecia e segundo uma sua muito forte convicção, teria partido em boa companhia. Ainda assim, o mistério, esse permaneceria nomeadamente, quanto à sua companhia e quanto ao seu ponto de chegada. O espanto e a tristeza transbordou no íntimo de todos os viandantes perante tão inopinada viagem.

A partir daí, numa nova circunstância e viajando a expensas próprias, todos vieram a dar conta que, dependeria de cada um, poder alcançar a avó. E talvez assim, numa futura encruzilhada, qualquer um deles a pudesse ou não, avistar, conforme a memória individual que dela, cada um guardasse no tempo.

quinta-feira, dezembro 04, 2003

Distribuição do Tempo

Cada vez são mais os que crêem menos
Nas coisas que preencheram as nossas vidas,
Os mais altos, os incontestáveis valores de Platão ou Goethe,
O verbo, a pomba sobre a arca da História,
A sobrevivência da obra, a descendência e as heranças.

Nem por isso caem do céu do neófito
Na ciência que expõe máquinas na lua;
Na verdade, tanto faz que o doutor Barnard
Faça transplantes do coração
Era preferível mil vezes que a felicidade de cada um
Fosse o exacto, o necessário reflexo da vida
Até que o coração insubstituível pudesse dizer simplesmente basta.

Cada vez são mais os que crêem menos
Na utilização do humanismo
Para o nirvana estereofónico
De mandarins e estetas.

Sem que isto queira significar
que quando houver um instante de inspiração
Não se leia Rilke, Verlaine ou Platão,
Ou se escute os ní­tidos clarins,
Ou se vislumbre os trémulos anjos
De Angélico.



Julio Cortázar (1914 - 1984)